quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Rio Branco

       A antiga denominação do Estado de Roraima, era Território Federal de Roraima ou, mais antigo ainda, Território Federal do Rio Branco. O principal e mais importante curso d’água de Roraima é o rio Branco. Por ele chegaram os primeiros colonizadores portugueses.

O vale do rio Branco sempre foi muito cobiçado por ingleses e holandeses, que aqui estiveram, através da Guiana, em busca de índios. Os espanhóis pelo território da atual Venezuela chegaram a invadir o norte do rio Branco, mais precisamente o rio Uraricoera. Coube aos portugueses derrotar e expulsar a todos esses invasores e estabelecer a soberania de Portugal e depois do Brasil nesta região.

A construção do Forte São Joaquim na confluência dos rios Uraricoera e Tacutu, em 1775, foi um marco decisivo na conquista do rio Branco para os domínios portugueses. Apesar do descobrimento do Brasil ter ocorrido em 1500, o que é hoje o Estado de Roraima só foi descoberto 200 anos depois e conquistado mais tarde ainda. A presença permanente do colonizador Português só ocorreu, de fato, após a construção do Forte São Joaquim.

Os primeiros colonizadores a chegar ao rio Branco foram: Capitão Francisco Ferreira e o Padre carmelita Jerônimo Coelho. Estes vieram com o propósito de aprisionar índios e recolher ovos de tartaruga para fazer manteiga. Depois deles, vieram Lourenço Belfort e Cristóvão Aires Botelho, que foram os primeiros a ultrapassar a cachoeira do Bem-Querer. Outro que subiu o rio Branco, foi José Miguel Aires também com o objetivo de aprisionar índios para vendê-los com escravos em Belém e São Luiz do Maranhão.

Nicolau Horstman foi um holandês que partiu de Paramaribo, capital da colônia holandesa na América do Sul, atingiu o rio Negro e depois o rio Branco em 1741 para fomentar o comércio de escravos índios pelos rios Tacutu e Jauaperí até àquela colônia. Os espanhóis, vindos do rio Orinoco entre 1771 e 1773, invadiram o rio Uraricoera, atravessando a cordilheira de Pacaraima, o que parecia impossível para os portugueses na época. Fundaram três povoações: Santa Rosa, Santa Bárbara e São João Bautista de Cada Cada. Foram, no entanto expulsos pelos portugueses.

A decisão para construir o Forte de São Joaquim, hoje praticamente destruído, foi tomada para que a partir do Forte, os portugueses pudessem enfrentar a cobiça internacional e assegurar a soberania de Portugal sobre as terras do vale do rio Branco. Após a inauguração do Forte, os portugueses partiram para a criação de povoados reunido os próprios índios da região. Foram criados: Nossa Senhora da Conceição e Santo Antônio (no rio Uraricoera), São Felipe (no rio Tacutu) e Nossa Senhora do Carmo e Santa Bárbara (no rio Branco).

Acostumados à liberdade, os índios não se sujeitaram às condições impostas pelos portugueses aos povoados. Anos depois, 1789, o comandante Manoel da Gama Lobo D’almada, para garantir a presença do homem, dito civilizado, nos campos naturais do Rio Branco (lavrado), que eram considerados excelentes para a criação de gado, partiu para a implatação da fazenda São Bento, no Uraricoera, depois aa fazenda de São José, no Tacutu e, por fim, na fazenda São Marcos, em 1799, esta fazenda ainda hoje existe, pertence aos índios e está localizada em frente ao local onde existia o Forte São Joaquim.

O gado era criado nos campos sem nenhum controle. Havia muita desorganização e com isso os animais se espalharam por todos os lugares. Servindo, inclusive, para que houvesse o aprisionamento de parte desses animais por particulares para a formação de outras fazendas. Serviu, também, para possibilitar aos índios, uma nova ocupação: a de vaqueiros. Os índios macuxi são reconhecidos, na região como excelentes vaqueiros.

Em 1808, com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, a região ficou abandonada e sentiu muito. Enquanto o Rio de Janeiro crescia com a chegada da família real, a criação da Casa da Moeda, da Academia real de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Teatro Real e a Escola de Medicina do Rio e de Salvador, o Forte São Joaquim era esquecido.

Quem mais atentou contra a soberania portuguesa na região e quem deu mais trabalho aos soldados do forte São Joaquim foram os ingleses. Entre 1810 e 1811, militares ingleses penetraram em território luso brasileiro. Foram no entanto recebidos com cordialidade pelo comando do forte mas impedidos de prosseguirem com o seu trabalho de penetração.

Um alemão de nome Robert Sechomburgk. Trabalhando para a Inglaterra foi o o estrangeiro que mais prejuízos deu ao Brasil. Este alemão, em 1835, a título de fazer um levantamento da geografia física do interior a Guiana , chegou até o forte São Joaquim, portanto no centro do Vale do Rio Branco. Ali foi recebido com cortesia, sem que os portugueses desconfiassem de sua ação naquele lugar. Sechomburgk regressou a Londres, mas em 1837, voltou à Guiana e continuou seus estudos geográficos. Em seus relatórios à Londres Sechomburgk, mandava dizer que a soberania lusitana na região era fraca, precária, quase inexistente. Sugeriu, inclusive, que Inglaterra deveria ocupar esses espaços “vazios” mandando demarcá-los para os domínios de sua majestade inglesa e até de ocupá-los em caráter permanente.

Esses relatórios causaram um impacto positivo na corte inglesa. A opinião pública britânica apoiou e assim o missionário inglês, protestante, Thomas Youd, foi mandado para a região. Este instalou-se na região do Pirara e passou a catequizar os índios para a religião e para o domínio inglês. A bandeira inglesa passou a ser hasteada em território brasileiro. Yound ensinou o idioma inglês aos índios. Foi necessário que o Comandante do Forte Capitão Ambrósio Aires e o Frei José dos Santos Inocentes, cumprindo ordens do Presidente da Província do Pará, General Soares de Andréia, fossem até a presença do audacioso missionário e o intimidasse a deixar o território onde estava instalado, pois ali era território brasileiro. Youd deixou a região mais levou consigo os índios já catequizados.

No entanto, Robert Schomburgk, em 1840, como resultado dos seus estudos geográficos, desenhou uma carta (mapa) e a remeteu a Londres. Nesta carta ele mostrava que a região do Tacutu, do Maú até do Surumu era ocupada por tribos independentes “. Baseado nessa sua conclusão, Schomburgk indicou a Londres uma nova fronteira entre as terras brasileiras e as terras da colônia inglesa na América do Sul. Esta nova fronteira tinha como limites o rio Cotingo e o rio Surumu.Por sua vez o Brasil, que tinha proclamado sua independência de Portugal há poucos anos, tinha como sua fronteira com a Guiana, o divisor de águas do rio Tacutu com o Essequibo, ou seja o rio Tacutu o seus afluentes da margem direita. E assim considerava porque a doutrina na época era de que quem dominava um rio, era o dono de toda a sua bacia em toda a extensão. E o rio Tacutu com seus afluentes é um formador do rio Branco, conquistando e dominado pelos portugueses a partir do rio Negro. Não havia dúvida quanto a isto a não ser nos relatos mentirosos do alemão Robert Schmburgk à Londres. O Forte São Joaquim era o mais importante testemunho deste domínio português, uma vez que estava erguido na margem esquerda do próprio rio Tacutu.

A opinião pública inglesa, impressionada pelos relatos de Schomburgk, passou a exigir que o governo inglês acatasse as sugestões do alemão e passasse a demarcar a região pelos rios Contingo e Surumu. Definindo, assim, a nova fronteira entre o Brasil e a Guiana. Devido ao descaso da família real com o norte brasileiro e apesar da existência do Forte, a presença brasileira na fronteira era fraca. E até a independência do Brasil (1822) contribuiu para essa fragilidade de ocupação. Mesmo assim, o governo do Pará, a quem a região estava subordinada administrativamente, protestou em Belém perante o cônsul inglês e o governo do Brasil protestou em Londres através do Embaixador brasileiro. Diante dos protestos, o governo britânico, que já havia iniciado a demarcação da área, mandou retirar os marcos: divisórios já colocados no rio Cotingo e no Surumu, mas não desistiu de conquistar a região.

O governo brasileiro titubeou ao encaminhar, em 1842, uma recomendação ao governo britânico, sugerindo a neutralização da área do Rupunini, objetivo da disputa entre o Brasil e a Inglaterra. A Inglaterra, de imediato concordou com a neutralização mas não recuou dos seus direitos. Assim o governo inglês só aceitou esta neutralização incluindo a região do Cotingo e do Mau. A disputa diplomática entre o Brasil e a Inglaterra pela área do Tacutu incluindo o Rupunini, o Cotingo e o Mau se estendeu até 1898 quando o Brasil acatou a proposta inglesa de submeter a questão ao governo da Itália que atuaria como árbitro.

O governo brasileiro indicou Joaquim Nabuco, grande jurista pernambucano para acompanhar o julgamento que seria feito pelo Rei Vitório Emanuel III, da Itália, defendendo as propostas brasileiras. Nabuco dedicou-se com afinco à causa, estudando-a e mostrando com bons argumentos a supremacia brasileira na região. Sua obra, sobre o rio Branco e seus formadores e afluentes e especialmente sobre esta questão da fronteira entre Brasil e Inglaterra é muito grande e profunda. São 18 volumes que impressionam quanto ao conteúdo e quanto aos argumentos.

Mas, apesar dos esforços da diplomacia brasileira através de Joaquim Nabuco, do Barão do Rio Branco e do governo do Pará através de Antonio Ladislau Monteiro Baena, em 1904. Sua Majestade o Reio Dom Vitório Emanuel III, da Itália, deu a palavra final, retirando 19.630km2 do território brasileiro, pertencente ao Estado de Roraima, e entregou-os à Inglaterra (Guiana),definindo, assim os limites entre o Brasil e aquele país pelos rios Tacutu e Mau. É certo, também que se não fossem os argumentos e a defesa de Joaquim Nabuco, teríamos perdido muito mais terreno e a fronteira seria pelo Cotingo e Surumu. O Brasil e Roraima, em particular, muito devem a Joaquim Nabuco.

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