O Rio Branco
A antiga denominação do Estado de Roraima, era Território
Federal de Roraima ou, mais antigo ainda, Território Federal
do Rio Branco. O principal e mais importante curso d’água
de Roraima é o rio Branco. Por ele chegaram os primeiros
colonizadores portugueses.
O
vale do rio Branco sempre foi muito cobiçado por ingleses
e holandeses, que aqui estiveram, através da Guiana, em busca
de índios. Os espanhóis pelo território da
atual Venezuela chegaram a invadir o norte do rio Branco, mais precisamente
o rio Uraricoera. Coube aos portugueses derrotar e expulsar a todos
esses invasores e estabelecer a soberania de Portugal e depois do
Brasil nesta região.
A
construção do Forte São Joaquim na confluência
dos rios Uraricoera e Tacutu, em 1775, foi um marco decisivo na
conquista do rio Branco para os domínios portugueses. Apesar
do descobrimento do Brasil ter ocorrido em 1500, o que é
hoje o Estado de Roraima só foi descoberto 200 anos depois
e conquistado mais tarde ainda. A presença permanente do
colonizador Português só ocorreu, de fato, após
a construção do Forte São Joaquim.
Os
primeiros colonizadores a chegar ao rio Branco foram: Capitão
Francisco Ferreira e o Padre carmelita Jerônimo Coelho. Estes
vieram com o propósito de aprisionar índios e recolher
ovos de tartaruga para fazer manteiga. Depois deles, vieram Lourenço
Belfort e Cristóvão Aires Botelho, que foram os primeiros
a ultrapassar a cachoeira do Bem-Querer. Outro que subiu o rio Branco,
foi José Miguel Aires também com o objetivo de aprisionar
índios para vendê-los com escravos em Belém
e São Luiz do Maranhão.
Nicolau
Horstman foi um holandês que partiu de Paramaribo, capital
da colônia holandesa na América do Sul, atingiu o rio
Negro e depois o rio Branco em 1741 para fomentar o comércio
de escravos índios pelos rios Tacutu e Jauaperí até
àquela colônia. Os espanhóis, vindos do rio
Orinoco entre 1771 e 1773, invadiram o rio Uraricoera, atravessando
a cordilheira de Pacaraima, o que parecia impossível para
os portugueses na época. Fundaram três povoações:
Santa Rosa, Santa Bárbara e São João Bautista
de Cada Cada. Foram, no entanto expulsos pelos portugueses.
A
decisão para construir o Forte de São Joaquim, hoje
praticamente destruído, foi tomada para que a partir do Forte,
os portugueses pudessem enfrentar a cobiça internacional
e assegurar a soberania de Portugal sobre as terras do vale do rio
Branco. Após a inauguração do Forte, os portugueses
partiram para a criação de povoados reunido os próprios
índios da região. Foram criados: Nossa Senhora da
Conceição e Santo Antônio (no rio Uraricoera),
São Felipe (no rio Tacutu) e Nossa Senhora do Carmo e Santa
Bárbara (no rio Branco).
Acostumados
à liberdade, os índios não se sujeitaram às
condições impostas pelos portugueses aos povoados.
Anos depois, 1789, o comandante Manoel da Gama Lobo D’almada,
para garantir a presença do homem, dito civilizado, nos campos
naturais do Rio Branco (lavrado), que eram considerados excelentes
para a criação de gado, partiu para a implatação
da fazenda São Bento, no Uraricoera, depois aa fazenda de
São José, no Tacutu e, por fim, na fazenda São
Marcos, em 1799, esta fazenda ainda hoje existe, pertence aos índios
e está localizada em frente ao local onde existia o Forte
São Joaquim.
O
gado era criado nos campos sem nenhum controle. Havia muita desorganização
e com isso os animais se espalharam por todos os lugares. Servindo,
inclusive, para que houvesse o aprisionamento de parte desses animais
por particulares para a formação de outras fazendas.
Serviu, também, para possibilitar aos índios, uma
nova ocupação: a de vaqueiros. Os índios macuxi
são reconhecidos, na região como excelentes vaqueiros.
Em
1808, com a chegada da família real portuguesa ao Brasil,
a região ficou abandonada e sentiu muito. Enquanto o Rio
de Janeiro crescia com a chegada da família real, a criação
da Casa da Moeda, da Academia real de Belas Artes, a Biblioteca
Nacional, o Teatro Real e a Escola de Medicina do Rio e de Salvador,
o Forte São Joaquim era esquecido.
Quem
mais atentou contra a soberania portuguesa na região e quem
deu mais trabalho aos soldados do forte São Joaquim foram
os ingleses. Entre 1810 e 1811, militares ingleses penetraram em
território luso brasileiro. Foram no entanto recebidos com
cordialidade pelo comando do forte mas impedidos de prosseguirem
com o seu trabalho de penetração.
Um
alemão de nome Robert Sechomburgk. Trabalhando para a Inglaterra
foi o o estrangeiro que mais prejuízos deu ao Brasil. Este
alemão, em 1835, a título de fazer um levantamento
da geografia física do interior a Guiana , chegou até
o forte São Joaquim, portanto no centro do Vale do Rio Branco.
Ali foi recebido com cortesia, sem que os portugueses desconfiassem
de sua ação naquele lugar. Sechomburgk regressou a
Londres, mas em 1837, voltou à Guiana e continuou seus estudos
geográficos. Em seus relatórios à Londres Sechomburgk,
mandava dizer que a soberania lusitana na região era fraca,
precária, quase inexistente. Sugeriu, inclusive, que Inglaterra
deveria ocupar esses espaços “vazios” mandando
demarcá-los para os domínios de sua majestade inglesa
e até de ocupá-los em caráter permanente.
Esses
relatórios causaram um impacto positivo na corte inglesa.
A opinião pública britânica apoiou e assim o
missionário inglês, protestante, Thomas Youd, foi mandado
para a região. Este instalou-se na região do Pirara
e passou a catequizar os índios para a religião e
para o domínio inglês. A bandeira inglesa passou a
ser hasteada em território brasileiro. Yound ensinou o idioma
inglês aos índios. Foi necessário que o Comandante
do Forte Capitão Ambrósio Aires e o Frei José
dos Santos Inocentes, cumprindo ordens do Presidente da Província
do Pará, General Soares de Andréia, fossem até
a presença do audacioso missionário e o intimidasse
a deixar o território onde estava instalado, pois ali era
território brasileiro. Youd deixou a região mais levou
consigo os índios já catequizados.
No
entanto, Robert Schomburgk, em 1840, como resultado dos seus estudos
geográficos, desenhou uma carta (mapa) e a remeteu a Londres.
Nesta carta ele mostrava que a região do Tacutu, do Maú
até do Surumu era ocupada por tribos independentes “.
Baseado nessa sua conclusão, Schomburgk indicou a Londres
uma nova fronteira entre as terras brasileiras e as terras da colônia
inglesa na América do Sul. Esta nova fronteira tinha como
limites o rio Cotingo e o rio Surumu.Por sua vez o Brasil, que tinha
proclamado sua independência de Portugal há poucos
anos, tinha como sua fronteira com a Guiana, o divisor de águas
do rio Tacutu com o Essequibo, ou seja o rio Tacutu o seus afluentes
da margem direita. E assim considerava porque a doutrina na época
era de que quem dominava um rio, era o dono de toda a sua bacia
em toda a extensão. E o rio Tacutu com seus afluentes é
um formador do rio Branco, conquistando e dominado pelos portugueses
a partir do rio Negro. Não havia dúvida quanto a isto
a não ser nos relatos mentirosos do alemão Robert
Schmburgk à Londres. O Forte São Joaquim era o mais
importante testemunho deste domínio português, uma
vez que estava erguido na margem esquerda do próprio rio
Tacutu.
A
opinião pública inglesa, impressionada pelos relatos
de Schomburgk, passou a exigir que o governo inglês acatasse
as sugestões do alemão e passasse a demarcar a região
pelos rios Contingo e Surumu. Definindo, assim, a nova fronteira
entre o Brasil e a Guiana. Devido ao descaso da família real
com o norte brasileiro e apesar da existência do Forte, a
presença brasileira na fronteira era fraca. E até
a independência do Brasil (1822) contribuiu para essa fragilidade
de ocupação. Mesmo assim, o governo do Pará,
a quem a região estava subordinada administrativamente, protestou
em Belém perante o cônsul inglês e o governo
do Brasil protestou em Londres através do Embaixador brasileiro.
Diante dos protestos, o governo britânico, que já havia
iniciado a demarcação da área, mandou retirar
os marcos: divisórios já colocados no rio Cotingo
e no Surumu, mas não desistiu de conquistar a região.
O
governo brasileiro titubeou ao encaminhar, em 1842, uma recomendação
ao governo britânico, sugerindo a neutralização
da área do Rupunini, objetivo da disputa entre o Brasil e
a Inglaterra. A Inglaterra, de imediato concordou com a neutralização
mas não recuou dos seus direitos. Assim o governo inglês
só aceitou esta neutralização incluindo a região
do Cotingo e do Mau. A disputa diplomática entre o Brasil
e a Inglaterra pela área do Tacutu incluindo o Rupunini,
o Cotingo e o Mau se estendeu até 1898 quando o Brasil acatou
a proposta inglesa de submeter a questão ao governo da Itália
que atuaria como árbitro.
O
governo brasileiro indicou Joaquim Nabuco, grande jurista pernambucano
para acompanhar o julgamento que seria feito pelo Rei Vitório
Emanuel III, da Itália, defendendo as propostas brasileiras.
Nabuco dedicou-se com afinco à causa, estudando-a e mostrando
com bons argumentos a supremacia brasileira na região. Sua
obra, sobre o rio Branco e seus formadores e afluentes e especialmente
sobre esta questão da fronteira entre Brasil e Inglaterra
é muito grande e profunda. São 18 volumes que impressionam
quanto ao conteúdo e quanto aos argumentos.
Mas,
apesar dos esforços da diplomacia brasileira através
de Joaquim Nabuco, do Barão do Rio Branco e do governo do
Pará através de Antonio Ladislau Monteiro Baena, em
1904. Sua Majestade o Reio Dom Vitório Emanuel III, da Itália,
deu a palavra final, retirando 19.630km2 do território brasileiro,
pertencente ao Estado de Roraima, e entregou-os à Inglaterra
(Guiana),definindo, assim os limites entre o Brasil e aquele país
pelos rios Tacutu e Mau. É certo, também que se não
fossem os argumentos e a defesa de Joaquim Nabuco, teríamos
perdido muito mais terreno e a fronteira seria pelo Cotingo e Surumu.
O Brasil e Roraima, em particular, muito devem a Joaquim Nabuco.
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