Esta semana, o Ministério da Justiça recebeu um relatório preocupante
sobre a violência contra a mulher no Brasil. A cada cinco minutos, uma
mulher é agredida no país. Em quase 70% dos casos, quem espanca ou mata a
mulher é o namorado, marido ou ex-marido. Qual é o estado brasileiro
onde mais ocorrem assassinatos de mulheres? E o que está sendo feito
para acabar com tanta barbaridade?
Namoradas, noivas, esposas - não importa. “Me arrastou pelo
cabelo, me jogou dentro do banheiro, enfiou minha cabeça dentro do vaso,
me bateu muito, me chutou”, lembra uma vítima. A cada cinco minutos,
uma mulher é espancada no Brasil. “Eu vi a morte na minha frente. O vi
pegando uma faca e vindo para o meu lado”, conta a vítima.
Pode ser uma recém-casada, grávida de seis meses: “O último que
ele ia me dar ia ser na barriga, porque, a todo momento que ele dava uma
paulada, ele falava que ele ia me matar”, diz uma mulher.
Pode ser alguém apanhando em silêncio por mais de dez anos:
“Aquilo já virou tão rotina, que você não conta mais quantas agressões
foram, se foram três em um mês, se foram dez”.
Nem a polícia consegue evitar. “Infelizmente, determinados
homens botam na cabeça que a mulher é um objeto dele, que pertence a
ele, que ele pode tudo sobre ela, que ele pode bater, que ele pode
brigar e que ele pode até matar”, afirma o delegado Adroaldo Rodrigues.
O mapa da violência de 2012, pesquisa coordenada e recém
concluída pelo sociólogo Júlio Jacobo, mostra uma clara diferença entre
assassinatos de homens e mulheres: “Homem morre primordialmente na rua.
Homem morre primordialmente por violência, entre os pares, entre os
jovens, na rua. Mulher morre no domicílio, na residência”, explica
Jacobo.
Ao todo, 68% das mulheres que procuraram o Sistema Único de
Saúde em 2011 para tratar ferimentos disseram que o agressor estava
dentro de casa. Em 60% dos casos, quem espanca ou mata é o namorado, o
marido ou ex-marido.
“Minha vida já estava um inferno na companhia de alguém que
dizia que amava, mas horas depois estava me batendo”, conta uma mulher.
Entre 87 países, o Brasil é o 7º que mais mata. São 4,4
assassinatos em cada grupo de 100 mil mulheres. O estado mais violento é
o Espírito santo, com 9,4 homicídios por 100 mil. E o que mata menos é o
Piauí, com 2,6 homicídios por 100 mil mulheres. O Fantástico foi aos
dois estados para entender as razões dessa diferença.
Trezentas mulheres são atendidas na Delegacia da Mulher da
Cidade de Serra, na Região Metropolitana de Vitória, e pelo menos 200
homens são investigados todos os meses. Como Renildo, que jura
inocência: “Mulher, a gente... Não se bate. Se bate com uma rosa”,
afirma.
O que não quer dizer que Luzia tenha paz: “Ele quebra a janela,
invade a casa, entra dentro de casa. Ele quebra a fechadura da porta e
entra dentro de casa, fica me esperando dentro de casa. Quando eu vejo
que ele está dentro de casa, em vez de entrar dentro de casa, eu saio e
ligo para a polícia. Só que na hora que eu ligo para a polícia, ele se
manda, vai embora, e a polícia nunca pega”, ela relata.
Nenhum argumento o convence: “Eu gosto dela, eu não me esqueço
dela”, ele garante. “Eu já falei com ele: ‘me dá um tempo, me deixa
viver em paz, deixa eu viver minha vida. Eu já perdi meus empregos por
causa de você’. Mesmo assim, ele não me deixa em paz”, ela diz.
“Eu tenho o número dela aqui. Não vou falar que não. Eu ligo”,
Renildo confessa. “Enquanto eu estou conversando com você aqui ele já
ligou! Pode olhar, enquanto eu estou conversando com vocês aqui. Ele
liga 24 horas para o meu celular”, diz Luzia.
A delegada da mulher Susane Ferreira o chamou para explicar que
ele tem de ficar pelo menos 200 metros longe dela. É ordem do juiz: “O
desrespeito a essa decisão acarreta a sua prisão”, avisa.
Renildo prometeu à delegada que ia respeitar a ordem. Mas a
convicção não passou da porta: “Eu não vou desistir, não. Eu vou correr
atrás”, confessou. O resultado foi a prisão dele na semana seguinte. Mas
nem algemado, nem levado ao xadrez, ele se convenceu: “Ela gosta de mim
ainda. Tenho certeza absoluta. Ela falou que vai retirar a queixa. É
para eu pagar meu erro. Então vou pagar. Acho que meu erro foi
pressionar ela demais. Reconheço que pressionei ela demais. Ajudei ela
bastante, o que eu pude fazer por ela eu fiz”, afirma.
Argumentos econômicos como esse são bastante comuns. “Eu paguei
um curso, eu paguei uma faculdade. E aí, para eles, isso é uma dívida
eterna. A companheira tem que se submeter à estrita vontade dele”,
explica a delegada Susane.
A dependência econômica fez com que uma mulher esperasse 13 anos
para denunciar o marido. “Ele era agressivo no começo. Teve uma vez que
eu tentei terminar com ele e simplesmente ele foi lá e me deu um tapa
na cara”, ela lembra.
Houve um tempo em que apanhava dia sim, dia não: “Eu já criei
aquele medo dele, que eu comecei a não ligar mais, a falar: ‘eu tenho
que obedecer ele e acabou. Eu vou continuar com ele’. Já não questionava
mais, obedecia. Agia assim por medo dele”, revela.
No dia em que ela propôs separação, o marido se enfureceu: “Ele
me empurrou. E nisso que eu abaixei para pegar a minha bolsa ele me deu
uma paulada aí eu desmaiei. Com um pedaço de pau a paulada”, ela diz.
Só na cabeça, foram 24 pontos, mais dois no rosto e um braço
quebrado: “Fiquei sete dias na cama. Parou minha vida, eu fico
perguntando para Deus: ‘Por quê? Todo mundo se separa numa boa, por que
ele fez isso comigo?’. Acabou comigo, eu olho no espelho a minha cabeça
raspada, meu rosto feio”, lamenta a vítima.
O marido pagou fiança e responde processo em liberdade, mas a
Justiça o proibiu de se aproximar dela. “Não me sinto protegida com
isso. Até a polícia chegar, ele já me matou”, diz.
Outra mulher que foi agredida e ameaçada de morte pelo marido
está com os filhos sob a proteção do estado em um abrigo cujo endereço é
mantido sob absoluto sigilo. A casa é vigiada 24 horas por dia. E a
moça vai permanecer no local até que a Justiça decida o que fazer com o
agressor. O problema é que as chamadas medidas protetivas determinadas
por um juiz nem sempre conseguem conter a fúria de um assassino.
Quando foi assassinada, aos 47 anos, Anita Sampaio Leite trazia
um papel que obrigava o marido a ficar pelo menos um quilômetro longe
dela. “Andava com a medida protetiva dentro da bolsa, na esperança de
que, quando o visse, entrasse em contato e fosse imediatamente para a
detenção, para o presídio”, lembra Antônio Sampaio, irmão de Anita.
Anita e o marido, o pedreiro Hercy de Sousa Leite, de 52 anos,
viveram juntos por mais de 30 anos. Os filhos do casal já não suportavam
ver a mãe apanhar. “Ele mantinha minha mãe completamente em cárcere
privado. Minha mãe não podia sair. Para ela sair, era tudo programado do
jeito dele. Se passasse do jeito dele, dava problema. Ele batia nela”,
conta Wellington Sampaio.
Quando Anita pediu a separação, em 2011, Hercy voltou a
agredi-la e chegou a ser preso. Mas pagou a fiança e foi embora. “A vida
da minha irmã valeu R$ 183”, lamenta o irmão de Anita. Anita foi morta a
facadas no quintal da casa dela, em agosto de 2011. Hercy ainda está
foragido. Ele já respondia a um processo por agressão.
Um dia depois do assassinato, um oficial de Justiça chegou a
procurar Anita para intimá-la a depor como vítima. “Ela está lá no
cemitério de Ponta da Fruta, você vai encontrar ela lá agora. Porque ela
já morreu. Demorou demais para chegar essa intimação”, relata o irmão,
sobre o encontro com o oficial.
São tantos crimes que a polícia do Espírito Santo teve de criar a
primeira delegacia do Brasil especializada em investigar homicídios de
mulheres. Quase todos os assassinos agem da mesma forma. “Há um
histórico de agressão anterior. Ou seja, o homem não chega e, em uma
ocasião fortuita, tira a vida da mulher. Não, isso vem como uma bola de
neve, aumentando, cada vez maior, cada vez a agressão vem de forma mais
violenta, até que culmina com um homicídio”, explica o delegado Adroaldo
Rodrigues.
Foi o que aconteceu com Josiléia Morogeski, de 33 anos. “Ele
falou que se ela largasse dele, ele mataria ela”, diz um parente da
vítima. Inconformado com a separação, o ex-namorado Adalberto Campos
atirou cinco vezes contra Josiléia na frente da família dela.
Sexta-feira (27) ele foi preso nos arredores de Vitória.
Para a polícia do Espírito Santo, a raiz de todos esses crimes é
uma só: “Traduz muitas vezes a questão do machismo mesmo, do homem
querer resolver o problema por se fazer homem”, destaca o chefe da
Polícia Civil do estado, Joel Lyrio.
O que faz o Piauí andar na contramão dessa tendência? “O Piauí
também é machista, só que aqui o trabalho é com eficácia. Na polícia não
se deve cochilar. Não deixe a madrugada chegar, tem que ser imediato”,
alerta a delegada Vilma Alves.
Às 9h50 da manhã, a delegada recebe a denúncia. Às 10h05, ela
liga para a Polícia Militar pedindo uma guarnição: “Uma senhora foi
espancada e o marido quer matar. Ela está com medo de retornar e eu
quero prendê-lo”, avisou.
Às 10h20, um PM está na delegacia recebendo instruções. Às
11h05, a delegada já está diante do acusado, preso, na Central de
Custódia de Teresina.
Delegada: O senhor sempre bate nela?
Acusado: Não.
Delegada: Ela disse que já não aguenta mais, não quer mais viver
com o senhor. O senhor está sabendo que quando sair não vai ficar com
ela, não é?
A pressa da delegada é a urgência do juiz. “Quando nos chega às
mãos, a gente decide no máximo em 24 horas, talvez no mesmo horário do
expediente”, afirma o juiz José Olindo Gil Barbosa.
Uma azeitada articulação entre polícia e Justiça não deixa
denúncias se acumularem. “Até em tom de brincadeira eu digo: ‘aqui no
Piauí, a gente trabalha igual a pai de santo, a gente recebe, mas também
despacha’”, diz o destaca o promotor Francisco de Jesus Lima.
Na linha de frente dessa força-tarefa, uma mulher sempre
perfumada, de brincos e colar de pérolas. “Como eu ensino as mulheres a
andarem bonitas, a se amarem em primeiro lugar, então eu procuro andar
sempre assim. Porque eu me amo”, ela garante.
Sobre a mesa de trabalho, um salto plataforma modelo Lady Gaga. E
outra mesa repleta de santos. “Os meus santos estão aí para me
proteger”, diz. O resto é com a delegada: “Eu aprendi que remédio de
doido é doido e meio. Mas dentro da educação, sem bater”, avisa.
Com educação, mas falando grosso: “Aqui é olho no olho. Eu
pergunto: ‘você comprou a sua mulher no mercado velho ou no shopping?’”.
Em audiências informais, ela põe vítima e acusado lado a lado e
dá lições de boas maneiras. “Eu não sei como você foi educado. Mas você
precisa de umas pinceladas de como tratar uma mulher. Não se trata
mulher na ponta do pé”.
Não hesita em enquadrar um machão: “Como foi que começou? Olhe nos meus olhos! Como foi que começou essa droga?”.
E deixa claro que ordem judicial é para ser cumprida: “Vamos
resolver a situação. A situação é essa: ela não quer mais você. Está com
um mês que separou. Como você foi lá? Preste bem atenção: você foi
preso agora. Não tem mais direito à fiança. Porque se você voltar, você
vai ser preso e vai diretamente para a penitenciária”.
Não importa se a moça de olho roxo mora em bairro chique: “Nunca
vi isso na minha família, na família dele. Os dois têm curso superior.
Nossa família também tem curso superior. Classe média alta”, relata uma
vítima.
A delegada assegura: ninguém escapa do indiciamento: “Aqui é de
tudo, político e tudo. Bateu, se faz o procedimento”, garante.
Os movimentos feministas e o Ministério Público se uniram em
campanha. E a própria delegada, professora de formação, vai aonde for
preciso para passar o seu recado.
“A mulher não é piano, mas gosta de ser tocada. Um beijinho no
pescoço, um carinho. O certo é você chegar: ‘está aqui, meu amor, minha
vida, meu perfume, minha rosa’. É assim! Quem foi que deu um cheiro na
mulher hoje?”, questiona a um grupo.
A Lei Maria da Penha é explicada ponto a ponto. “Se você estiver
achando que você é dono de sua mulher, xinga a sua mulher, espanca todo
dia, ela pode chegar na delegacia e dizer: ‘doutora, eu não quero mais,
eu quero que meu marido saia’. E ele sai em 48 horas. Eu adoro fazer
isso”, avisa.
Os maridos ouvem atentamente o alerta final: “Se você forçar é
estupro. E se ela chegar na delegacia e disser que você estuprou, eu lhe
prendo, tranquilo, meu bem”. O resultado desse esforço coletivo é a
queda da violência, mas se engana quem acha que os números do Piauí
agradam a delegada.
“Nenhum número é aceitável para mim. Nenhuma morte. Viver em paz
é o que é importante. Como se admite uma mulher ser morta pelo seu
marido? Porque a mulher não é mais coisa, não é objeto, não é
propriedade. Mulher é cidadã e deve ser respeitada”, destaca.
Fonte: Fantastico.globo